Na relação entre empresários de ônibus e políticos do Rio, a propina nunca foi passageira. Há pelo menos 20 anos, a Federação das Empresas Transportadoras de Passageiros (Fetranspor) paga uma caixinha mensal de R$ 6 milhões a alguns deputados da Alerj. O esquema foi revelado pelos dois principais chefões da área de transporte: Jacob Barata Filho, o Rei do Ônibus, e o ex-presidente da Fetranspor, Lélis Teixeira. As denúncias foram feitas ao juiz federal Marcelo Bretas, durante interrogatório no âmbito da Operação Cadeia Velha, que investiga o recebimento de propinas na Alerj.

Segundo o Rei do Ônibus, o objetivo dos pagamentos era garantir apoio a projetos de interesse do setor. No início do interrogatório, Barata disse a Bretas que abria mão de R$ 80 milhões, que já tinham sido bloqueados pela Justiça, ao longo da operação. Ele garantiu que o dinheiro sujo era entregue diretamente aos então presidentes da Alerj, deputados Jorge Picciani e Paulo Melo, ambos do MDB. “Havia um acordo de pagamento. Mas realmente o Jorge Picciani, como presidente da Alerj, teria que ter essa contribuição porque os projetos todos passam pela Assembleia”, justificou Barata. Se o valor da propina fosse dividido igualitariamente pelos 70 deputados, cada parlamentar ganharia em torno de R$ 85 mil por mês.

Lélis Teixeira também confirmou a existência da caixinha da Fetranspor, mas alegou que não participava das negociações, mesmo sendo o presidente. Ele argumentou que era técnico, mas soube da existência do pagamento de vantagens indevidas a Picciani e Melo. Lélis não se esqueceu do outro parlamentar do MDB preso na Operação Cadeia Velha: o deputado Edson Albertassi. Segundo o ex-presidente da Fetranspor, Albertassi recebeu as vantagens através de rádios de sua família no interior, inclusive por ser presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Alerj. Tanto esta comissão quanto a de Transportes, de acordo com Lélis, eram importantes para a Fetranspor ter “boas relações”.

Na quinta-feira, o doleiro Álvaro Novis, que fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal, havia dito ao juiz Marcelo Bretas que fez pagamentos ilícitos a deputados do MDB em nome da Fetranspor e da construtora Odebrecht. No depoimento, o colaborador contou que o dinheiro vivo saía das garagens de ônibus e era distribuído por empresas transportadoras de valores. A ordem era trocar as notas mais baixas usadas pelos passageiros por cédulas de maior valor exigidas pelos deputados.

A defesa de Picciani afirmou que o depoimento de Barata levanta apenas conjecturas, uma vez que ele diz que seria outra pessoa que faria os pagamentos e não informou que tipo de ajuda o deputado teria dado a ele e ao setor. Albertassi negou irregularidades nos contratos entre as rádios da família e a Fetranspor. Paulo Melo não se pronunciou.

Ex-assessores também são beneficiados

Por 2 votos a 1, os desembargadores da 1ª Turma Especializada, do Tribunal Regional Federal 2, decidiram soltar os irmãos Fábio e Andreia Cardoso, ex-assessores de Jorge Picciani e Paulo Melo, acusados de receber propinas para os parlamentares.

Fábio era auxiliar do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani. No dia em que foi preso, Fábio estava com R$ 55 mil. Andreia seria intermediária de repasses a Melo, que teria recebido R$ 54 milhões.

Fábio e Andreia, para ganhar a liberdade, sustentaram que já foram exonerados da Assembleia, e não teriam como interferir na ação. Só Paulo Espírito Santo votou contra.

Bretas solta Felipe Picciani

O juiz Marcelo Bretas decidiu libertar ontem Felipe Picciani, filho de Jorge Picciani. Felipe foi interrogado pelo magistrado. O Ministério Público Federal foi contra, mas Bretas alegou que não havia mais necessidade de mantê-lo preso. O alvará foi expedido ontem, mas Felipe só deixará a Cadeia Pública Pedrolino Werling de Oliveira, Bangu 8, hoje.

Preso em novembro na Operação Cadeia Velha, ele é acusado de ter sido um colaborador “indispensável” no esquema de corrupção que envolve o pai. Felipe é gerente da Agrobilara, empresa agropecuária da família. Em delação premiada, o ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado, Jonas Lopes, contou que comprou gado subfaturado por R$ 600 mil. Lopes revelou que combinou com Picciani e Felipe que seriam emitidas notas superfaturadas.

Fonte: ODIA