“Eu focando nos estudos consigo alcançar o nível de estabilidade que almejo pra minha vida, no futsal ou futebol isso não é certo”

Pedro Affonso disse em entrevista exclusiva para o Blog do Malheiros

É surpreendente até pro emissor neste caso. Um garoto de 17 anos que já conquistou um bocado de títulos, jogou em dois países diferentes, com chances reais de vingar como profissional, querer focar nos estudos para seguir carreira dentro de algum tipo de engenharia por “querer ganhar dinheiro e viver bem com a família”. Mas há de se ressaltar que não é no campo que o jovem tem talento, ele é mesmo das quadras, onde rola o futebol de salão, mais conhecido como futsal, da lenda Falcão.

Pedro Affonso começou bem cedo, ainda com 7 anos na escolinha do Palmeira Futebol Clube, em Petrópolis, Região Serrana do Estado do Rio. Ficou no time até os 11, quando foi para o Petropolitano Foot-Ball Club para estrear no campo, sem deixar o salão de lado. Nessas idas e vindas dentro da Cidade Imperial, Pedro disputou competições municipais e estaduais, quando começou a atrair o interesse dos grandes clubes cariocas.

No sub-13, novamente no Palmeira (sim, é sem o ‘s’ no final), o prodígio foi artilheiro de um campeonato organizado pela União de Futsal do Estado do Rio de Janeiro (UFSERJ), nesse meio termo ele ainda encontrava tempo para treinar no campo do Serrano Football Club e no futsal do Vasco da Gama.

Até aqui pode parecer uma história estranha – de pula aqui, joga ali – mas não! É normal que garotos quando ainda estão em fase de formação e morem no interior, ter diferentes locais de treino, em contato com pessoas distintas e formas de jogar nada semelhantes na maioria dos casos. Isso gera maior visibilidade ao disputar mais competições de diferentes níveis.

Alguns anos se passaram, a correria continuou e Pedro Affonso foi artilheiro mais uma vez pelo Palmeira FC, desta vez pelo campeonato da sua cidade natal. Nesse mesmo ano, Pedro conta que enquanto treinava no Fluminense foi convidado a fazer parte do Rio de Janeiro Futsal Academy, equipe que iria disputar o Torneio Internacional da modalidade, realizado na Espanha.

  • Na época eu também treinava no Flu e os diretores desse clube juntaram atletas de vários times do Rio. Íamos jogar o mundial da categoria. Foi muito legal, primeira viagem pra fora. Estávamos entusiasmados, todos jovens – comentou.

A agremiação foi criada com o objetivo de dar oportunidades para jovens atletas e treinadores em competições internacionais, fortalecendo o intercâmbio esportivo entre gerações.

Voltando ao Torneio, ou melhor, invadindo o país espanhol, o elenco carioca sagrou-se campeão em cima do Barcelona. Uma goleada de 7 a 2 em plena final coroou o título do RJ Futsal Academy na casa do time catalão. A competição foi disputada no início deste ano.

Logo após, Pedro ainda fez estágio em um time norte-americano, com o intuito de ganhar experiência internacional e se consolidar no esporte. Por lá o garoto disputou o Northeast Regional Futsal Championship, realizado na cidade de Atlanta, estado de Nova Jersey.

  • Além de ter ido pra fora, joguei muitos campeonatos aqui no Brasil. Copa Zico fui vice-campeão duas vezes, também disputei Rio Futsal, uma vez teve encontro dos times do sudeste e me aventurei até no Fut7 – disse o menino.

Dos títulos conquistados, estão cinco campeonatos municipais, um campeonato mundial como já citado anteriormente, campeão carioca de Fut7, bi-campeão da Copa MUNIRAM e do encontro entre os times do sudeste.

Mas a desvalorização o desanimou. Ele justifica que prefere dar um tempo para estar 100% (cem por cento) focado no seu último ano do ensino médio e posteriormente fazer alguma faculdade no ramo de engenharia.

  • É difícil no futsal. Se desse certo no campo daria pra eu viver a vida que almejo, mas não vislumbro estabilidade jogando nas quadras. Prefiro focar nos estudos. Se um dia surgir uma nova oportunidade, eu até pensaria – contou.

Pedro aproveitou a oportunidade para reiterar que sente vontade de fazer um intercâmbio e “se tivesse como voltar a estar perto do futebol, melhor ainda”.

Futsal brasileiro e futebol feminino: por que tão desvalorizados?

Difícil responder uma pergunta, quando se tem um (as) dos (as) maiores jogadores (as) da modalidade sendo brasileiro (a). Eles mesmo, Falcão e Marta. O rei das quadras e a rainha da grama!

Certamente Falcão levou o nome do esporte para todos os cantos do mundo com a bandeira brasileira estampada no lado esquerdo do peito. Mas a Marta não fica nem um pouco pra trás, com nada mais, nada menos que 6 bolas de ouro, patente de melhor jogadora do mundo – a que mais tem dessa.

É histórico que as atenções estejam voltadas para o futebol masculino de campo. Muitas pessoas envolvidas nessas modalidades desvalorizadas alegam que a falta de investimento é um dos maiores empecilhos para o andamento e organização de competições em alto nível.

No entanto os maiores salários ficam apenas com 20% (20 por cento) dos jogadores de campo. De acordo com relatório publicado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em fevereiro de 2016, a maioria deles ganham cerca de quatro salários mínimos.

A justificativa do jovem talento Pedro tem embasamento, tanto no futsal quanto no campo, a maioria não vive uma vida dos sonhos. As mulheres por exemplo, ganham ainda menos. No paulista feminino o maior salário é R$ 5.000, ressaltando que a maioria das mulheres nem contrato tem.

É legal esticar a conversa para ver se cabe de alerta! Temos tanta variedade esportiva dentro do país, mas apenas alguns são valorizados. Para mudar um pouco esse cenário, a CONMEBOL e a CBF decretaram que os clubes participantes de competições organizadas pelas respectivas entidades, deverão ter times de futebol feminino, ao contrário, correm o risco de serem desclassificados.

Aos poucos os esportes ganham força. No Brasil, por exemplo, São Paulo é o estado brasileiro que mais ganha visibilidade no futsal. Olhando para o velho continente, a Liga Espanhola é de altíssimo nível e tem grande influencia no estilo de jogo. No futebol feminino quem dispara na frente é o Estados Unidos, com equipes bem formatadas e salários melhores.

Enquanto isso, o futsal luta há algum tempo para se tornar uma modalidade olímpica também. Na próxima Olimpíada já teremos avanço, será que em 2024 veremos quadras fervendo? Essa é vontade de todos os amantes de ‘la pelota’.