Apesar da presença online maciça de crianças e adolescentes – um em cada três usuários de internet em todo o mundo tem menos de 18 anos de idade –, muito pouco é feito para protegê-los dos perigos do mundo digital e para aumentar seu acesso a conteúdo online seguro, disse o UNICEF em seu principal relatório anual divulgado hoje.

Situação Mundial da Infância 2017: Crianças e adolescentes em um mundo digital apresenta o primeiro olhar abrangente do UNICEF sobre as diferentes maneiras pelas quais a tecnologia digital está afetando a vida e as chances de meninas e meninos, identificando perigos e oportunidades. O relatório argumenta que governos e setor privado não acompanharam o ritmo da mudança, expondo crianças e adolescentes a novos riscos e danos e deixando para trás milhões de meninas e meninos mais desfavorecidos.

“Para o bem e para o mal, a tecnologia digital é agora um fato irreversível em nossa vida”, disse o diretor executivo do UNICEF, Anthony Lake. “Em um mundo digital, nosso duplo desafio é como mitigar os danos maximizando os benefícios da internet para cada criança e cada adolescente”.

O relatório explora os benefícios que a tecnologia digital pode oferecer às crianças e aos adolescentes mais desfavorecidos, inclusive aqueles que crescem na pobreza ou são afetados por emergências humanitárias. Isso inclui aumentar seu acesso à informação, construir habilidades para o local de trabalho digital e dar-lhes uma plataforma para que se conectem e comuniquem seus pontos de vista.

No entanto, a publicação do UNICEF mostra que milhões de crianças e adolescentes estão sendo deixados para trás. Cerca de um terço dos jovens (entre 15 e 24 anos) em todo o mundo – 346 milhões – não está online, exacerbando as iniquidades e reduzindo a capacidade de meninas e meninos de participar em uma economia cada vez mais digital.

O relatório também examina como a internet aumenta a vulnerabilidade de crianças e adolescentes a riscos e danos, incluindo o uso indevido de suas informações privadas, o acesso a conteúdos prejudiciais e o cyberbullying. A presença onipresente de dispositivos móveis, segundo o relatório, fez o acesso online ser menos supervisionado para muitos meninos e meninas – e potencialmente mais perigoso.

E redes digitais como a internet obscura e as criptografias estão permitindo as piores formas de exploração e abuso, incluindo o tráfico e a distribuição online de pornografia infantil “feita sob encomenda”.

Internet Sem Vacilo no Brasil
No Brasil, o relatório destaca a campanha Internet Sem Vacilo, que promoveu o comportamento online seguro entre adolescentes e abordou questões como cyberbullying, sexting e privacidade. Lançada em 2015, contou com a participação dos youtubers Jout Jout e Pyong Lee e atingiu quase 14,5 milhões de pessoas e gerou mais de um milhão de visualizações de redes sociais. A Safernet, parceiro da campanha, mantém uma central de atendimento por telefone e online para ajudar crianças, adolescentes e jovens afetados pela violência no ambiente digital. Os principais tópicos abordados pelo serviço em 2016 foram o cyberbulling, com 312 casos; sexting, 301 casos; e problemas com dados pessoais, 273 casos.

Proteja Brasil – Denúncias online
O Proteja Brasil é um aplicativo gratuito que permite a toda pessoa se engajar na proteção de crianças e adolescentes. É possível fazer denúncias direto pelo aplicativo, localizar os órgãos de proteção nas principais capitais e ainda se informar sobre as diferentes violações. Desde 2014, o aplicativo foi baixado mais de 190 mil vezes.

As denúncias são encaminhadas diretamente para o Disque 100, serviço de atendimento do governo federal. O aplicativo também recebe denúncias de locais sem acessibilidade, de crimes na internet e de violações relacionadas a outras populações em situação vulnerável.

Crianças e adolescentes na era digital
O relatório apresenta dados e análises atuais sobre a utilização da internet e de redes online por crianças e adolescentes e o impacto da tecnologia digital sobre o bem-estar de meninas e meninos, explorando debates crescentes sobre o “vício” digital e o possível efeito do tempo em frente à tela no desenvolvimento do cérebro.

Outros pontos apresentados pelo relatório:
*   Os adolescentes e jovens de 15 a 24 anos formam o grupo etário mais conectado. Em todo o mundo, 71% estão online em comparação com 48% da população total.
*   A juventude africana é a menos conectada, com cerca de 3 em cada 5 jovens offline, em comparação com apenas 1 em cada 25 na Europa.
*   Aproximadamente 56% de todos os websites estão em inglês e muitos meninos e meninas não conseguem encontrar conteúdo que eles entendam ou que seja culturalmente relevante.
*   Mais de 9 em 10 URLs de abuso sexual infantil identificados globalmente estão hospedados em cinco países: Canadá, Estados Unidos, França, Holanda e Rússia.

Somente uma ação coletiva – por parte de governos, setor privado, organizações que defendem os direitos da infância e adolescência, universidades, famílias e os próprios meninos e meninas – pode ajudar a assegurar a igualdade de oportunidades no espaço digital e tornar a internet mais segura e mais acessível para crianças e adolescentes, afirma o relatório do UNICEF.

Recomendações para atividades prioritárias
Recomendações práticas para ajudar a orientar uma formulação de políticas mais eficazes e práticas comerciais mais responsáveis para beneficiar crianças e adolescentes incluem:

● Fornecer a todos os meninos e meninas acesso a recursos online de alta qualidade.
● Proteger as crianças e os adolescentes de danos online – incluindo abuso, exploração, tráfico, cyberbullying e exposição a materiais inadequados.
● Salvaguardar a privacidade e a identidade das crianças e dos adolescentes online.
●Capacitar digitalmente crianças e adolescentes para mantê-los informados, engajados e seguros online.
● Aproveitar o poder do setor privado para promover normas e práticas éticas que protejam e beneficiem as crianças e os adolescentes online.
● Colocar as crianças e os adolescentes no centro da política digital.

“A internet foi concebida para adultos, mas é cada vez mais usada por crianças, adolescentes e jovens – e a tecnologia digital afeta cada vez mais a vida e o futuro deles. Sendo assim, as políticas, práticas e produtos digitais devem refletir melhor as necessidades, as perspectivas e as vozes das crianças e dos adolescentes”, disse Lake.

 

Sobre o UNICEF

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) trabalha em alguns dos lugares mais difíceis do planeta, para alcançar as crianças mais desfavorecidas do mundo. Em 190 países e territórios, o UNICEF trabalha para cada criança, em todos os lugares, para construir um mundo melhor para todos. Para mais informações sobre o UNICEF e seu trabalho pelas crianças, visite www.unicef.org.br. Acompanhe nossas ações no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.

 

Foto: Reprodução da internet