Na última semana, mais especificamente no dia 19 de junho, nós tivemos o Dia do Cinema Nacional. A data marca o momento em que o italiano Afonso Segreto registrou imagens em movimento na Baía da Guanabara. Este marco histórico ocorreu em 1898, no mesmo ano em que Campos Salles foi eleito presidente do Brasil e o clube do Vasco da Gama foi criado no Rio de Janeiro.

Desde então, o cinema brasileiro já atravessou inúmeras fases, algo que irradia nas inúmeras variações que nós temos em nossa linguagem cinematográfica contemporânea. E, em um ano que o filme “Bacurau”, a ficção científica de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, arrancou suspiros no Festival de Cannes, vencendo o prêmio do júri, não podemos deixar o mês do cinema nacional passar em branco.

Sempre quando tratamos da nossa sétima arte, esperamos aquela face receosa daqueles que nos escutam falar com admiração da nossa produção. Mas, sem essa admiração, é impossível falar do cinema nacional. A nossa produção passou por tantas idas e vindas – períodos nebulosos – que chega, até mesmo, ser romântica toda essa história. Não daria para falar de tudo em apenas um texto, mas comentarei alguns períodos que julgo importantes para a compreensão. Mas é sempre válido uma pesquisa mais aprofundada de cada momento.

Tudo começa se imaginarmos que o filme “Ancoradouro de Pescadores na Baía da Guanabara”, de Cunha Salles, apenas teve a sua existência confirmada após a descoberta de anúncios do extinto jornal Gazeta de Petrópolis, nas edições dos dias 1° e 6 de maio de 1897. A sua existência era um total mistério. Hoje, nós só podemos admirar os 24 fotogramas restantes da obra original, todos estão disponíveis no Arquivo Nacional. Ele seria o primeiro filme brasileiro da história, segundo alguns dos especialistas.

Outro fato deslumbrante, que não poderia deixar passar em branco, está no vanguardista “Limite”, de Mário Peixoto. Uma película que não foi aclamada pelo público no período, mas que traz uma narrativa e linguagem singular para o nosso cinema. Atualmente o filme é estudado por muitos da área da comunicação social, devido a sua importância colossal para a história do nosso audiovisual.

Na década de 30, um estouro veio com todas as complexidades políticas envolvendo o período entre as gestões de Washington Luís e o início da era Vargas: A invasão do cinema norte-americano.

Naquele momento, parecia ser interessante uma abertura para o cinema ianque e seu grande mercado. Mas o que poderia gerar empregos e o aumento de salas de exibição, tornou o desenvolvimento da indústria cinematográfica brasileira algo cada dia mais distante. – Esse período reflete em nossa exibição atual, repleto de produções norte-americanas. Estamos habituados com estes filmes.

Ao final da década de 40, temos um novo grande avanço do nosso cinema. É o início da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que tinha o objetivo de vender os nossos filmes, com uma produção técnica de ponta, para todos os lugares do mundo. Porém, este grande sonho se tornou impossível pelos equívocos na forma de distribuição dos produtos. Isto gerou a falência desta grande empresa, que deixou filmes importantes como “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. Este filme, que foi exibido em todo o mundo, através da Columbia Pictures, foi um sucesso de bilheteria. Uma pena que o western brasileiro não trouxe lucro para a Vera Cruz, que fechou as portas em 1954. Um ano após o lançamento do seu clássico.

Falando do clássico “O Cangaceiro” de Lima Barreto, é impossível não lembrar que a produção foi duramente criticada pelo cineasta Glauber Rocha, algo que é retratado no livro “A Primavera do Dragão”, de Nelson Motta. – Sim, este é o momento de falarmos um pouco do Cinema Novo.

Bebendo da fonte dos movimentos do Neo-Realismo Italiano e da Nouvelle Vague da França, o Cinema Novo mudou a linguagem cinematográfica brasileira. Com a frase, que hoje parece até clichê, de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, o movimento veio quebrando inúmeros paradigmas. Seja na grande obra de ficção documental “Opinião Pública”, de Arnaldo Jabor, ou no clássico “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, ou no vanguardista “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, (Filme muito elogiado por Nelson Rodrigues).

Após este período, temos a ascensão de dois movimentos importantes, o Cinema Marginal, de obras como “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, e o Pornochanchada, com todos os seus filmes que misturavam erotismo e comédia. Ambos os movimentos foram importantíssimos para entendermos muito das produções atuais no cinema.

Porém, depois de tanto avanço, vivemos um período soturno e amargurante, com o encerramento da grandiosa Embrafilmes, que foi criada como uma forma de termos um incentivo ao nosso cinema, além do fim de todos os demais mecanismos de incentivo, no período de Fernando Collor.

O incentivo só foi resgatado no final da década de 90, com o que veio a se chamar de “Retomada”. Com filmes que marcaram gerações, como é o caso de “Cidade de Deus”, “Carandiru” e, até mesmo, “Tropa de Elite”. O nosso cinema voltou a avançar significativamente no período que agora estamos, na pós-retomada, com cada vez mais produções nacionais batendo recordes.

Hoje, nós temos inúmeros segmentos de cinema, algo que vai do norte ao sul de nosso país. E, por mais que ainda temos uma predominância do eixo Rio-São Paulo, há muito sendo feito no cinema nacional. Um dos grandes exemplos disso é o cinema nordestino, de títulos como “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, “A Febre do Rato”, de Cláudio Assis, de “Cine Holliúdy”, de Halder Gomes, além do mais novo ganhador de Cannes, “Bacurau”. Enfim, com uma história marcada por tantos encerramentos e aberturas, a pergunta que fica é: Para qual direção o nosso cinema irá caminhar agora?

Eu acredito que essa história romântica irá avançar nos gêneros e linguagens. Hoje, com o avanço tecnológico e as facilitações que isto nos traz, podemos ter ainda mais produções e dos mais variados estilos. Terá cinema para todos os gostos! E muito me agrada a volta das cotas para o cinema nacional assinada pelo ministro Osmar Terra. Espero que estes incentivos continuem! Se em nossa história tivemos tantos incentivos a exibição de filmes internacionais em terras tupiniquins, por que não bater palmas para um pouco de incentivo para o que é nosso? Enfim, o texto é corrido, mas esta é uma pequena homenagem a este mês, que é o meu aniversário, e que traz consigo uma data tão importante para a nossa cultura.