Por Marcelo Magon

O filme é uma fábula moderna sobre autoritarismo, sonhos e amadurecimento. O cinema oriental a partir do fim do século passado, novamente ganha destaque com cineastas chineses e japoneses, desde animações do diretor Hayao Miyazaki ( Meu amigo Totoro e Princesa Mononoke) a dramas de Ang Lee (Brokeback Mountain) vemos uma evolução constante em aspectos técnicos e líricos condizentes ao maior representante asiático na sétima arte: Akira Kurosawa. Na virada do século XXI vemos o surgimento de uma nova potência cinematográfica nas produções Sul-coreanas, que embaladas pela aceitação no mercado ocidental desponta, focando bem mais em situações políticas e sociais, diferentemente da abordagem sobrenatural, dramática e de tons fantásticos de seus antecessores.

O desconhecido Hun Jang dirige O Motorista de Táxi e consegue a proeza de tornar a película escolhida para representar a Coréia do Sul no Oscar 2018, e já na metade do filme descobrimos o porque. Ele é capaz de agradar todo tipo de público, inclusive os que não tão fãs do cinema oriental, onde eu me enquadro nesse rol. É um “road movie” sempre sobre a ótica de Kim, um taxista de Seul, que sem ter como pagar o aluguel e cuidar de sua filha após a morte da esposa, decide aceitar uma corrida até a pequena cidade de Gwangju transportando um alemão em troca de uma pequena fortuna. No caminho ele vai tomando consciência das intenções do passageiro, em uma viagem de auto conhecimento que tem tudo pra modificar sua vida.

O filme é baseado em uma história verídica que aconteceu na Coréia do Sul durante a década de 80. Nem Kim, nem a população estão cientes totalmente da lei marcial, que assola o país sob o domínio autoritário do exército do ditador Chun Doo-hwan, pois a mídia encobre o fato que acontece em Gwangju.  As universidade estão fechadas, os estudantes resistem em protestos e o povo se une a eles pedindo por liberdade enfrentando armas de fogo e a brutalidade de uma ditadura vigente. A filmagem de Hun Jang capricha nos planos gerais e closes sempre dando ao espectador seu ponto de vista na figura de Kim e do passageiro do táxi, que descobrimos a esta altura ser um repórter que vem cobrir o conflito. Diante dos olhos do taxista a situação de violência diária, escondida pelo poder, se descortina e pouco a pouco seus problemas pessoais vão perdendo o sentido, e diante do cenário caótico de guerra ele amadurece.

Em muitos momentos a direção torna-se documental, desvelando a covardia do governo sob centenas de manifestantes indefesos clamando por justiça e democracia. Nós como espectadores somos confrontados a todo momento na meia hora final do filme: será que conseguiríamos assistir a tudo que está acontecendo e não fazer nada pra ajudar? Essa é a pergunta que move o filme em determinado momento, quando o mesmo pende pro panorama social que engloba um povo, e não tão somente às crises pessoais que o taxista passa até a metade do filme, tais como ter um táxi velho que não saía do mecânico.

O filme, como numa fábula, usa seu herói e o joga em uma jornada impossível de ser vencida. Faz pensar aos que acreditam que um regime militar possa ser a solução para os problemas sociais de um país e ao mesmo tempo revela uma classe média embriagada por seus problemas diários sem perceber o verdadeiro cerne do problema, isto é, uma coisa bem atual, que o filme explora bem, principalmente nos sonhos expressos por muitos personagens que vem e vão durante o longa. A relação de Kim com o repórter alemão é tocante. Sua relação antes motivada apenas por egoísmos, em que um precisa de dinheiro e o outro não está nem aí se vai prejudicar o parceiro, evolui durante todo o longa até chegar em uma final memorável. É emocionante sem ser piegas, e desde já um dos melhores filmes de 2017 sendo um sério candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

 

SOBRE O COLUNISTA

Marcelo Magon é Bacharel em Pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, artista plástico, caricaturista, cartunista, ilustrador e ator. Participa ativamente do mercado cultural do Estado do Rio de Janeiro há 25 anos em publicações e em eventos em geral com caricaturas ao vivo, exposições de cartuns e HQs. Formou-se na Escola de Teatro Martins Penna como ator, e a partir daí virou um estudioso da sétima arte, participando de várias oficinas e cursos sobre cinema. Trabalhou ao longo dos anos em diversas agências de publicidade e propaganda, além de várias editoras, incluindo a EDIOURO e a Editora AKS em que desenvolveu a série “Cruzadinhas pela HISTÓRIA” , dentre outras publicações infanto juvenis. Como artista plástico, depois de participar de várias coletivas como artista plástico, lança em 2013 sua primeira exposição individual “Medidas EXTREMAS” na Sala de Cultura Leila Diniz.Em 2014 foi curador da exposição “Humor no Solar – O Palco em Caricaturas” no Solar de Botafogo. É o criador e administrador do grupo “Cinéfilos RJ” no Facebook e atualmente leciona Artes em diversas unidades do SESC no Rio de Janeiro.


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