Nem todo Carnaval tem seu fim

Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco, todo Carnaval um enredo maior que une as vozes dos foliões. Neste ano, foi a resistência. Não fosse a histórica vitória da Estação Primeira de Mangueira, contando o que nunca nos contaram oficialmente, 2019 já seria lembrado pelas ruas tomadas por blocos e movimentos críticos aos governos, aos intolerantes e aos discursos contrários à liberdade e democracia. Isso assusta muita gente!

Na cidade do Rio, Crivella agoniza com sua incapacidade administrativa aliada ao confuso discurso que mistura fé e política. Ano após ano, busca inviabilizar um dos maiores carnavais do Brasil, uma festa popular, tradicional, que além de ser patrimônio cultural movimenta bilhões para o município e região. Tenta calar o Carnaval, pois sabe que seu nome não será perdoado nas sátiras. Já Witzel, através da Política Militar, do Corpo de Bombeiros e da Polícia Civil, procurou ganhar no tempo nas medidas surpresas e em prazos inéditos. Ignorou o explícito Decreto Estadual 45551 de 25 de Janeiro de 2016 – o qual pouca gente do poder público e até da imprensa se deu o trabalho de ler – que foi criado justamente para desburocratizar as apresentações das entidades carnavalescas nas praças públicas por todo o estado. Voltou atrás depois da pressão das associações carnavalescas Sebastiana e Amigos do Zé Pereira. Crivella também teve que ceder e ficou na torcida por problemas de violência e desordem, argumentos que usa constantemente para combater o Carnaval.

A prática chegou ao interior e o Carnaval em Petrópolis se transformou em uma verdadeira novela. Primeiro com a proibição do pré-carnaval, período em que boa parte dos blocos daqui se apresentam há anos, com o foco principal no impedimento inexplicável de atividades na Praça da Liberdade e pelo Centro Histórico. Decisão injusta e arbitrária após meses de inúmeras tentativas de diálogo por parte das entidades carnavalescas frente ao poder público. O segmento das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos esteve presente o ano todo nas reuniões do Conselho Municipal de Cultura, mesmo assim, nunca conseguiu uma reunião para planejamento e organização. O desrespeito continuou e atingiu até a querida Tribo de Gonzaga – grupo que há sete anos realiza o Carnaval da Liberdade pelas praças da cidade. Enquanto isso, o prefeito Bernardo Rossi se esbaldava na Marquês de Sapucaí entre celebridades. Agradecemos a Vila Isabel pelo desfile maravilhoso, mas denunciamos Rossi por não ter envolvido o povo do samba e a população petropolitana nele.

O desfecho foi um Carnaval incompleto, onde vários blocos foram impedidos ou proibidos, como o Boa Praça, o Acadêmicos do Indaiá, o Amigos do Samba, o Bloco das Piranhas, o Vai dar M, entre outros. Além disso, poucas entidades conseguiram se adequar às novidades ilegais do poder público, buscando na garra dar algum brilho para a cidade: Guerreiros da Vinte, Vai Quem Quer, Secos e Molhados, #TamoJunto, Tudo Errado Pra Dar Certo e outros – blocos importantes, mas que sofrem pela falta de um calendário oficial ou divulgação por parte da Prefeitura.

Nós do GRBC Boa Praça não aceitamos as imposições da Justiça, muito menos a postura covarde e inoperante da Prefeitura Municipal de Petrópolis. Ambas agiram contra a lei, contra nossos direitos e contra a essência da tradição do Carnaval: povo na rua, praça cheia de alegria, festa para todos e todas. Sendo assim, junto de vários artistas, movimentos e foliões, organizamos o Grito de Carnaval Petrópolis 2019 na Praça Dom Pedro. Lá, provamos novamente que ninguém pode mandar em nossa cultura. Foram cerca de 300 jovens, idosos e crianças protestando com seus sorrisos e fantasias. Ninguém quebrou nada, não teve desordem. Dezenas de policias nas dezenas de viaturas não reprimiram o encontro e prefeito e juízes terão que repensar suas decisões. Não toleraremos a narrativa mentirosa de que a culpa se dá em algum tipo de desorganização dos blocos, a arte não será criminalizada. Os gabinetes cinzas da burocracia precisarão conhecer as cores das ruas antes de qualquer censura.

Por fim, anunciamos nossa disposição em: nos aproximarmos mais ainda dos outros blocos e entidades carnavalescas, buscando ideias e ações conjuntas na defesa da festa em nossa cidade; lutarmos pelo reconhecimento da tradição do Carnaval Petropolitano como patrimônio cultural imaterial; dialogarmos com as ligas e associações cariocas para a criação de uma legislação estadual que fortaleça o direito adquirido de nos apresentarmos sem burocracia e sem dependência de vontades políticas; ampliarmos esforços junto ao Fórum Popular de Cultura contra a incompetência dos Instituto Municipal de Cultura e Esportes para que os eventos culturais em nosso município sejam mais organizados, plurais e seguros.

Carnaval na raça, tem festa na praça!

Yuri Moura
Presidente do Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco Boa Praça

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