A triste rotina que vem acontecendo nas águas de Mangaratiba a cada dia preocupa os profissionais da Prefeitura, de instituições e ONG’s. A mortandade de botos-cinza cresce assustadoramente desde o mês de novembro. Até quarta-feira, 142 indivíduos foram recolhidos sem vidas na baía. Um vírus seria o causador de tantas mortes.

A pergunta é uma só: o que fazer para isso parar? Biólogos e profissionais dizem que não há vacina ou ‘remédio’ para que este surto deixe de atingir a espécie. Segundo os especialistas, o morbilivírus – que vem atacando os cetáceos – já circulou e causou surtos de mortes na Austrália, no Atlântico Norte e no Mediterrâneo em outras espécies de golfinhos. Na América do Sul é a primeira vez. A expectativa de quem estuda as espécies para que esse quadro se reverta é que o animal adquira anticorpos para combater o vírus.

“O momento é crítico, mas temos que agir e estamos agindo. Solicitamos todos os órgãos possíveis e deixamos a Prefeitura à disposição (secretarias de Meio Ambiente e Agricultura e Pesca). Os botos têm muita importância para nossa baía e vamos fazer de tudo para voltarmos à normalidade”, disse o prefeito Aarão de Moura Brito Neto.

PESCADORES SEMPRE PARCEIROS DOS BOTOS
As atividades pesqueiras e portuárias também são fatores levados em consideração pelos especialistas. O atual cenário é diferente se levarmos em conta de que cerca de cinco carcaças de botos-cinza eram encontradas em um mês. O que se vê, atualmente, são cinco por dia, como mostram os técnicos. Ou seja, a pesca acidental acontece, mas a relação pescador x boto-cinza é de parceria, considerada de harmonia. A pesca acidental acontece, mas não é o fator principal neste momento.

“O que temos que fazer é levar mais conscientização para todos. O boto é patrimônio natural de Mangaratiba, é um símbolo de nossas águas e de suma importância para a vida marinha. Estamos recorrendo a todos os órgãos e estamos à disposição de todos para que essas mortes cessem. Assim, pedimos aos pescadores que modifiquem seus petrechos de pesca, como reduzir a altura da rede. Não queremos que parem a pesca, mas deixem o caminho livre dos botos (que nadam boa parte próximo à superfície). O mesmo é pedido para os banhistas e curiosos: não chegar perto, evitar ruídos e outras formas de aumentar o estresse do animal. Essa luta é de todos”, destacou o superintende de Pesca, Wanderson Carlos.

DRAGAGEM DE CANAL PARALISADA
O superintendente comemorou também a paralisação da dragagem que ocorre justamente no habitat dos cetáceos. A suspensão foi decidida na terça-feira, dia 23, pela Secretaria de Estado do Ambiente e tem duração de 15 dias. A medida atende uma recomendação do Ministério Público Federal (MPF).

A recomendação do procurador da República, Sergio Suiama, no site do MPF, também vai ao encontro da fala do superintende Wanderson. “É fundamental o engajamento das prefeituras de Itaguaí e Mangaratiba e dos proprietários de embarcações e pescadores no sentido de evitarem o trânsito nas áreas de agregação dos botos. As redes de pesca não devem ficar abandonadas na água, pois os botos doentes podem não conseguir escapar”, afirmou.

O BOTO-CINZA
Mangaratiba possui a maior concentração desses mamíferos no mundo. Mas este dado não é para ser tão comemorado assim. A espécie Sotalia guianensis, que é o nosso boto-cinza, está na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, com status de vulnerável. O desenvolvimento desordenado na região costeira promovido por atividades portuárias (Itaguaí), industriais (Santa Cruz), e pesca predatória degradam e diminuem seu habitat. Logo, a preservação é necessária, assim como de qualquer espécie marinha, para o equilíbrio do ecossistema. (fonte: Projeto Abrace o Boto-Cinza)

O boto (mesmo que golfinho) atinge, em média, dois metros de comprimento e vive até os 30 anos de idade, tornando-se adulto a partir dos seis anos. A fêmea tem somente um filhote a cada três anos e sua gestação dura aproximadamente 12 meses, o que torna sua conservação ainda mais urgente, visto que o vírus vem atacando, principalmente, fêmeas e filhotes.

MANGARATIBA: A CIDADE DO BOTO-CINZA
O poder público municipal ao longo dos anos vem atuando para que a espécie continue se perpetuando. Exemplos disso são as últimas leis. Em 2012, a Lei 832 “declarou o boto-cinza como Patrimônio Natural da cidade”. O artigo segundo diz que toda a coletividade é responsável por sua promoção, principalmente a sua proteção.

Em 2015, a Lei 962 cria a “Área de Proteção Ambiental Marinha Boto-Cinza (APA)”, com a finalidade de proteger, ordenar, garantir e disciplinar o uso racional dos recursos ambientais. Na APA Marinha Boto-Cinza pode-se: pesquisa científica, manejo sustentável, pesca necessária à garantia da qualidade de vida, pesca amadora e esportiva; ecoturismo, educação ambiental e esportes náuticos. É proibido rede de cerco com traineiras, arrasto com a utilização de sistema de parelha e portas e rede de couro.

Fonte: Prefeitura de Mangaratiba

Crédito da foto: Divulgação / Ascom Prefeitura de Mangaratiba