Por Marcelo Magon

 

O cinema francês é um dos mais cultuados e respeitados do mundo. Faz parte da história da sétima arte, foi lá que no século XIX cinema surgiu, mas atualmente ele possui mais erros que acertos. O país da Nouvelle Vague e de cineastas como Jean-Luc Godard e François Truffaut lança agora LOU baseado na vida de Lou Andreas-Salomé, escritora, psicanalista, poeta e estudiosa, nascida em São Petersburgo no ano de 1861. Filha de um general russo ela sempre foi uma mulher a frente de seu tempo. Criou ao longo da vida obras sobre feminismo e sexualidade, seus estudos psicanalíticos trataram de narcisismo e sexualidade feminina, muito antes das mulheres se emanciparem e descobrirem seu poder. E é aí que o filme erra. O roteiro que poderia ter focado em seu pioneirismo e coragem, privilegia seus relacionamentos de amizade e/ou sexo com homens admirados até hoje, verdadeiros gênios, mas que impedem nesta abordagem do roteiro de nos mostrar a verdadeira importância de Lou Salomé.

A direção de Cordula Kablitz-Post assume uma forma conservadora e convencional para narrar a história de uma das poucas mulheres aceitas no círculo psicanalítico de Viena, e como a diretora é mulher esperava-se uma abordagem menos retrógrada. A figura de uma das mulheres mais importantes do século XIX é focada quase que inteiramente na quantidade de homens que se envolveu. Ao determinar o rumo da história na sua vida amorosa, perde-se uma grande oportunidade de prestar um ode ao feminismo, reduzindo assim sua importância histórica em prol de relacionamentos que para ela era dispensável. Ainda assim o filme vale por representar um período ímpar de nossa história e pelas grandes performances das atrizes Nicole Heesters, Katharina Lorenz, Liv Lisa Fries e Helena Pieske que se alternam na interpretação das diferentes fases da vida de Lou.

O filme tem seu início em um período decisivo da história da romancista. É 1933, o movimento nazista cresce e um homem bate à porta de uma idosa Salomé para pedir ajuda. Salomé já muito debilitada fisicamente se nega a ajudar pois o movimento fascista, repleto de preconceitos, vê a psicanálise como uma ciência judia”. Nesse momento Lou Salomé começa a escrever suas memórias, e é assim, numa viagem ao passado que entramos em contato com um Paul Rée, delirante levado a ruína; Friedrich Nietzsche, um enlouquecido por paixão e Friedrich Carl Andreas, um pretenso suicida. Tudo isso segundo o roteiro da própria diretora, nos é levado a crer que a heroína é uma destruidora de corações. Além disso, Salomé causou estafa física e decadência religiosa em talvez seu grande amor: Rainer Maria Rilke. O padrão sempre se repete segundo o roteiro, os homens se apaixonam e Lou os trata somente como amigos, fazendo vista grossa na evidente adoração que ela causava.

A fotografia e a montagem da película é apenas ok, a edição é lenta como na maioria dos filmes franceses (tirando as comédias) e a visão da diretora insiste mais e mais no conceito de que o melhor é não se apaixonar, sendo esse o motivo da criatividade intelectual de Lou, coisa que não nos parece uma verdade se levarmos em conta que foi um Nietzsche desencantado pelo amor não correspondido que escreveu sua obra prima nessa época: ‘Assim Falava Zaratustra’.  Fica aquele gostinho de que o espírito livre e genial de Lou Andreas-Salomé poderia ter sido melhor aproveitado e representado nas mãos de um ótimo diretor. O filme chega às telas brasileiras em 11 de janeiro de 2018.

 

Ficha técnica

Lou Andreas-Salomé

Estréia: 11/01/2018

Gênero: BiografiaDramaRomance

Duração: 118 min.

Origem: Áustria, Alemanha, Itália, Suíça

Direção: Cordula Kablitz-Post

Roteiro: Cordula Kablitz-Post, Susanne Hertel

Distribuidor: Cineart Films

Ano: 2016

 

SOBRE O COLUNISTA

Marcelo Magon é Bacharel em Pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, artista plástico, caricaturista, cartunista, ilustrador e ator. Participa ativamente do mercado cultural do Estado do Rio de Janeiro há 25 anos em publicações e em eventos em geral com caricaturas ao vivo, exposições de cartuns e HQs. Formou-se na Escola de Teatro Martins Penna como ator, e a partir daí virou um estudioso da sétima arte, participando de várias oficinas e cursos sobre cinema. Trabalhou ao longo dos anos em diversas agências de publicidade e propaganda, além de várias editoras, incluindo a EDIOURO e a Editora AKS em que desenvolveu a série “Cruzadinhas pela HISTÓRIA” , dentre outras publicações infanto juvenis. Como artista plástico, depois de participar de várias coletivas como artista plástico, lança em 2013 sua primeira exposição individual “Medidas EXTREMAS” na Sala de Cultura Leila Diniz.Em 2014 foi curador da exposição “Humor no Solar – O Palco em Caricaturas” no Solar de Botafogo. É o criador e administrador do grupo “Cinéfilos RJ” no Facebook e atualmente leciona Artes em diversas unidades do SESC no Rio de Janeiro.


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