Infelizmente na última sexta-feira, 08 de fevereiro, por volta das 5h00 da manhã, um incêndio acordou o país do futebol em prantos. Foram queimados sonhos sendo realizados através de jovens promissores entre 14 e 16 anos que foram vítimas do desastre que atingiu o Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Neste domingo a pauta para a coluna seria outra, mas após o ocorrido decidi escrever sobre a tragédia que atingiu o time rubro-negro (sim, vou relatar algumas experiências em primeira pessoa, mesmo sabendo que isso é descartado em qualquer redação).

Como declarado na minha biografia, já tive oportunidade de ser um dos meninos que estavam no Ninho no momento do ocorrido. Assim como as vítimas, já pude correr atrás do sonho de ser jogador de futebol e passei por algumas coisas que me comoveram ao lembrar dos aprendizados colhidos na minha trajetória nos tempos que atuei na base. Todo moleque que escolhe seguir esse caminho vislumbra em jogar numa equipe de ponta e comigo não poderia ter sido diferente.

Em maio de 2014 estive no Ninho do Urubu para uma bateria de avaliações (se eu tivesse passado não estaria escrevendo nesse momento, mas provavelmente teria vivenciado cenas aterrorizantes na madrugada da última sexta). No período de treinamentos que durou uma semana pude observar algumas coisas que me impressionaram.

Naquele ano o CT ainda não era estruturado como é hoje, mas vale ressaltar que o local já estava sendo preparado para receber a modernização que o Flamengo desfruta atualmente. Também vi que atletas ficavam alojados no Ninho, em acomodações semelhantes as que foram atingidas no incêndio. Na verdade tudo no Ninho era semelhante ao que foi atingido, desde o quarto dos jovens, passando por vestiários, salas utilizadas pela diretoria e pela imprensa, até o departamento médico.

Mas acreditem: há local pior para ficar alojado se o olhar for à nível nacional, porém não é sobre a falta de estrutura que a maioria dos clubes brasileiros sofrem que estou abordando nesse domingo.

Voltando ao clube da Gávea é possível lembrar do planejamento que a gestão da ex-diretoria, comandada pelo então presidente, Eduardo Bandeira de Mello, fazendo do Ninho um centro de treinamento nunca visto antes no Rio de Janeiro. A atual gestão, guiada pelo presidente Rodolfo Landim daria continuidade ao trabalho, tanto é que novas acomodações já estavam recebendo os últimos ajustes para receber quem precisaria ficar alojado no local. O Flamengo queria (e estava) melhorar (ando) as condições do seu CT e isso não signfica que sua estrutura estivesse ultrapassada.

Crime? Negligência? Ou acidente?

Dois mil e dezenove. Ano que certamente entrará para história, mas se depender do que aconteceu até o momento, não será uma boa a ser contada. Lama, água e fogo. Fatores naturais ou não que deixarão sequelas por onde passaram. Crime? Negligência? Ou acidente? Difícil escrever respostas para essas perguntas.

Enquanto a mídia especula, fatos são apresentados e os órgãos competentes investigam. Tudo pode ser evitado, mas também tem a sorte no azar. Como no caso da barragem que rompeu em Brumadinho, Minas Gerais e também as chuvas que fizeram do Rio de Janeiro um caos há poucos dias. Tristes fatos que certamente poderiam ser evitados ou no pior dos casos, ter os danos irreparáveis minimizados.

No Ninho do Urubu, atletas que sobreviveram ao incidente, contam que tudo começou a partir de um ar-condicionado, que passou para outro, gerando um possível curto circuito. Tal informação foi comprovada pela perícia no mesmo dia. As investigações mostrarão se o alojamento estava dentro dos conformes perante as leis, mas pelo que foi transparecido por parte dos órgãos envolvidos na situação, o Fla deixou de cumprir alguns critérios sobre as documentações necessárias para que o seu centro de treinamento estivesse funcionando dentro dos parâmetros fundamentais.

Flamengo e Prefeitura do Rio podem ser responsabilizados

O Flamengo e a Prefeitura do Rio de Janeiro poderão ser civilmente responsabilizados pela tragédia que ocasionou a morte de 10 das 13 vítimas que atuavam nas categorias de base do clube rubro-negro.

De acordo com a Lei 12.395, art. 29, parágrafo segundo, letra D, sancionada em 2016 pela ex-presidenta Dilma Roussef, o clube formador tem que cumprir com algumas exigências, tais como “manter alojamento e instalações desportivas adequados, principalmente em matéria de alimentação, higiene, segurança e salubridade”. O texto alterou a Lei Pelé (9.615/1998) e definiu elementos fundamentais para o funcionamento das categorias de base.

A Lei Pelé ainda especifica que jogadores com menos de 20 anos mesmo que, sem vínculo profissional com o clube, tenham direito ao seguro de vida. Os atletas não podem assinar contrato profissional com menos de 16 anos. Antes o vínculo é chamado de “não profissional”.

Em relação as vítimas que estavam em período de avaliações, o Flamengo pode ser acionado com base no Código Civil, já que os jovens ainda não tinham uma ligação formal com o clube.

A Prefeitura do Rio reiterou em nota que o Flamengo só pagou 10 das 31 multas aplicadas por conta do CT não estar em dia com as documentações necessárias para seu funcionamento. A Prefeitura ainda pode ser responsabilizada se for constatado falha na fiscalização do local.

O clube reuniu um comitê para buscar mais informações sobre o fato. Landim ainda aproveitou para esclarecer as dúvidas sobre a planta do CT e a falta das documentações exigidas para garantia do alvará. O presidente declarou total apoio aos familiares dos jovens que se foram.

Conheça os 13 jovens que sofreram com o incêndio

Das dez pessoas mortas no ocorrido, três eram do Rio de Janeiro. Os outros sete meninos eram de outros estados, como Sergipe, Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo. As vítimas tinham entre 14 e 16 anos idade.

• Samuel Thomas: com apenas 15 anos, Samuel era morador de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Ele faria a viagem para casa no outro dia, mas foi imterrompido.

• Arthur Vinícius: o zagueiro tinha uma forte ligação com Felipe Mello. O volante estava sempre mandando chuteiras e mensagens de aniversário ao jovem que faria 15 anos no último sábado (09). Arthur havia começado sua trajetória no Volta Redonda com somente 10 anos de idade.

• Athila Paixão: de Lagarto, no Sergipe, Athila tinha 15 anos e antes de dormir naquela noite, expressou sua felicidade ao seu pai sabendo que treinaria no Maracanã e conheceria o estádio pela primeira vez.

• Gedson Santos: Gedinho com 14 anos havia chegado ao Flamengo por indicação do seu empresário. Em apenas dois dias treinando foi possível impressionar e conseguir mais alguns dias de avaliação. O jogador era de Itacaré, em São Paulo.

• Rykelmo Viana: antes de atuar pelo clube carioca, Rykelmo começou na Portuguesa Paulista. Com 16 anos, ele subiria de categoria neste ano. O jogador estava no clube há 3 anos.

• Bernardo Pisetta: apesar de ter somente 14 anos idade, o goleiro já apresentava boas experiências no futebol. O jovem havia jogado no Avaí e Athlético-PR antes de desembarcar na Gávea no ano passado.

Christian Esmério: um dos nomes mais promissores do sub-15 brasileiro, o em tão goleiro estava constantemente sendo convocado para a seleção brasileira de base. O adolescente foi destaque do Flamengo no título invicto da Nike Premier Cup.

Pablo Henrique: o zagueiro de 14 anos era de Oliveira, cidade de Minas Gerais. Lá ele era conhecido por ser primo do Werley, defensor do Vasco da Gama.

• Vitor Isaías: Vitinho começou a dar os primeiros passos da carreira no futsal. Nascido em Florianópolis, Santa Catarina, o jovem tinha apenas 15 anos e foi contratado pelo Flamengo no ano passado.

• Jorge Eduardo: o volante nasceu em Além Paraíba, em Minas Gerais. Jorge tinha apenas 15 anos, começando aos 7 anos como jogador de futebol de salão.

No momento do incêndio 26 atletas estavam no CT, sendo que 13 deles conseguiram escapar ilesos do local. Foram eles: Caike Duarte, Felipe Cardoso, Felipe Chrysman, Gabriel de Castro, Jean Sales, João Vitor Gasparini, Kayque Soares, Kennedy Lucas, Naydjel Callebe, Pablo Ruan, Rayan Lucas, Samuel Barbosa e Wendel Alves.

A tragédia poderia ter sido ainda maior, mas o treino de sexta havia sido cancelado por conta das chuvas que assombraram a cidade do Rio na quinta, 07 de fevereiro.

Três das 13 vítimas que não conseguiram fugir estão hospitalizadas, uma deles teve 35% o seu corpo queimado.

• Jonatha Cruz: o jovem teve 1/3 do seu corpo carbonizado, incuindo rosto, pescoço e tórax. Jonatha esta internado em estado grave, portanto estável, no Centro de Tratamento de Queimados que é referência na área, no Hopistal Municipal Pedro II, em Santa Cruz, zona oeste do Rio.

• Francisco Dyogo e Cauan Emanuel: não correm risco de vida e estão internados no Hospital Vitória, na Barra da Tijuca.

Que as famílias das vítimas fataia recebam todo amparo e força para continuar adiante. Toda sorte do mundo aos talentos que sobreviveram e ainda terão a oportunidade de realizar seus sonhos em memória dos seus amigos de clube!