Promovendo um encontro de realidades, a mostra, que agora será apresentada aos clientes de empreendimento de luxo em Goiânia, traz 26 fotografias surpreendentes sob o click e olhares de crianças e adolescentes de comunidade carente em Aparecida de Goiânia. Embaixada brasileira em Londres será o próximo destino das imagens

Ressignificar para existir. Com esse tema, segue até meados de abril a exposição do projeto Eyes of Street (Olhares da Rua) no decorado do Kingdom Park Residence – mais alta torre residencial do Centro-Oeste do País, (com 175,09 metros de altura), que está sendo construída na região do Parque Vaca Brava. A mostra reúne 26 fotografias feitas por 13 crianças e adolescentes da comunidade Terra do Sol, em Aparecida de Goiânia.

As imagens trazem o olhar interno desses jovens sobre a própria localidade onde vivem. Os participantes do projeto registraram o cotidiano dos moradores, captando com suas lentes as alegrias, esperanças, a garra e a criatividade que relutam em existir, apesar do contexto de precariedade de uma comunidade que abriga 487 famílias carentes, há mais de quatro décadas.

Idealizado e encabeçado pela a antropóloga Giselle Barboza e o jornalista e professor de fotografia Daniel Meirinho, o projeto Eyes of Street teve patrocínio da Sim Engenharia, uma das empresas responsáveis pela construção do Kingdom Park Residence, cujo o decorado passa abrigar a exposição de fotografias. De lá, a exposição segue para a Embaixada do Brasil em Londres.

De acordo com Giselle, a proposta é atribuir um novo significado ao cenário da comunidade, ou seja, ressignificar para existir e assim trazer um retrato afetivo da localidade Terra do Sol. “Desenvolvemos o projeto em várias comunidades carentes, não só do Brasil, mas em outros países também. Aqui, percebi um brilho diferente nos olhos dos moradores, que se sentem acolhidos e acarinhados com nossos clicks, conversas e afeto. A troca com eles é tão genuína e sincera e essa energia do amor é que cura, transforma e cria novas realidades. Nesta última edição algo maravilhoso aconteceu, um milagre, criado pelos olhos deles”, explica a antropóloga.

Semente

Para o especialista em desenvolvimento sustentável Marcelo Salvador Storti, essa exposição marca uma semente plantada com objetivo de minimizar os aspectos negativos e as mazelas da sociedade. “O resultado é o encontro de realidades diferentes, onde dois extremos são colocados em análise social. Aflora a consciência do capitalismo saudável e melhora as relações de sustentabilidade”, diz.

A líder da comunidade Terra do Sol, Francisca Barbosa da Silva, afirma que o propósito maior que percebeu no projeto foi o de “elevar a voz das crianças e jovens da comunidade’, que são os futuros agentes de mudança no local. “Pra gente é mais uma semente plantada e muitas vidas tocadas de forma tão profunda e impactante”, avalia.

Para o apoiador do projeto, o incorporador e diretor da Sim Engenharia, Paulo Silas, a ação promovida pelo “Olhares da Rua” é empoderadora, tanto para os realizadores e patrocinadores, quanto para os jovens que participam. “A comunidade Terra do Sol é um exemplo de contextos marginalizados pela sociedade que, entretanto, tem um papel muito importante. A comunidade dá exemplo quando o assunto é ressignificação de material reciclável, construindo casas de madeira e folhas de metal, cercas de para-brisas de ônibus, muros de portas de metal, carcaças de ônibus que se tornam tetos e paredes e assentos de ônibus que são reutilizados em áreas comuns”, afirma o incorporador.

Transformação social

O Eyes of Street teve início no Brasil em 2015 e já passou por cidades dos estados de Pernambuco, Rio de Janeiro, no país africano Guiné-Bissau e em Portugal. O projeto, que usa a fotografia como ferramenta de transformação social, oferece a oportunidade para os participantes refletirem sobre suas problemáticas e oportunidades, além de apresentar suas realidades a partir de uma percepção própria, longe de olhares estereotipados. Dentro da programação de atividades são realizados cinco dias de oficinas de fotografia.

Os jovens participam de uma imersão criativa, recebem câmeras fotográficas para fotografar sua comunidade de acordo com o tema mais latente, que é definido pelos próprios jovens logo no primeiro dia. Um dos temas que Giselle sempre traz para dentro das oficinas é o uso da fotografia de forma ética.

“A fotografia nos proporciona a magia de guardar uma imagem para sempre fora de nós e por isso seu grande poder é a afetividade. Apresentamos uma metodologia pedagógica para ajudar os participantes a entender que a fotografia é uma relação de troca de afetos, expomos algumas regras de como fazer a fotografia, uma delas é pedir permissão para as pessoas, externando a experiência da doação da fotografia. Ou seja, não é o fotógrafo que tira a foto e sim o fotografado que doa sua imagem”, esclarece Giselle.