O longa Eu, Tonya é realizado de uma forma completamente inesperada pelo público, é mais que uma biografia, a história nos apresenta uma mulher guerreira, que enfrentou diversas barreiras para ir em busca do que mais lhe importava na vida: a patinação artística no gelo. A produção elucida de maneira esperta e surpreendente o que Harding teve de lutar por toda sua vida. Sua mãe, interpretada aqui com esmero pela veterana Allison Janney (Beleza Americana, 1999), é retratada como uma mulher de personalidade forte repleta de palavrões no linguajar, que abusava fisicamente da filha, prepotente, que se convenceu de ter sido ela que levou a filha ao estrelato.

Margot Robbie é Tonya Harding, e durante o filme acompanhamos a história de sua infância problemática, mas que já demonstrava ter o dom para a patinação, passando pela sua adolescência onde se apaixona por seu futuro marido que também passa a maltratá-la até chegar ao grande escândalo que marcaria a sua vida para sempre. Apesar do núcleo familiar complicado e de não ter a admiração do público, Tonya tinha uma habilidade incrível na patinação, tendo a persistência e coragem necessárias para ser a melhor competidora. Tudo ia relativamente bem para a moça, que torna-se a primeira mulher americana a fazer o temido Triple Axel, até que, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1994, sua principal concorrente Nancy Kerrigan é atacada por um bastão no joelho, sendo anulada das competições e destruindo com o escândalo o sonho de Tonya de patinar. O longa instiga o espectador para a pergunta: Quem é o verdadeiro vilão?

As atuações de Margot Robbie e Allison Janney são dignas do Oscar de Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante, tal é a maneira que elas passam a verdade e os conflitos dos personagens. A força da natureza de Eu, Tonya é mesmo o trabalho maravilhoso de Robbie, sem dúvida o melhor de sua ainda breve carreira. Sua abordagem à Harding vai muito além de apenas uma transformação física, e ela apresenta a esportista não como uma celebridade de jornais sensacionalistas ou uma pessoa depressiva, mas sim uma pessoa repleta de camadas, alguém que veio a descobrir muito cedo na vida que o mundo não é um lugar justo, e que precisou lutar muito contra isso desde então, mesmo que por vezes da maneira errada.

O filme mistura bem suspense,  investigação policial, e drama sobre abuso doméstico, caprichando no humor negro, mérito para o roteiro de Steven Rogers e para a direção de Craig Gillespie, diretor Australiano de A Garota Ideal. A história é tão rica que somos confrontados a todo instante e incrédulos perguntamos onde é ficção e onde é realidade. Foge do lugar comum em mostrar a história pela ótica da protagonista, nunca sabemos com certeza se é a versão dela ou se foi tudo real. O diretor e roteirista criam uma atmosfera possibilitando que entendamos as razões que levaram Tonya a ser quem é, e nos faz ter misericórdia pela patinadora devido a todo seu histórico de sofrimento. Eu, Tonya é uma cinebiografia produzida para fugir do convencional, mas vai além, é um longa, insano, emocionante e visceral.