À imprensa cabe fazer a conexão mais sincera entre o povo e seus governantes – podendo controlar populações ou depor presidentes. The Post: A Guerra Secreta escancara os dilemas acerca do desafio por liberdade e das guerras secretas contra a repressão. Adaptação de acontecimentos reais, o filme se destaca nos sentidos histórico e social, abdicando, contudo, de profundidade das personagens.

Dirigido por Steven Spielberg, The Post narra a polêmica dos Pentagon Papers – uma série de documentos ultra-secretos do governo estadunidense acerca da Guerra do Vietnã vazados para a imprensa – sob a perspectiva do The Washington Post na década de 70. Sob ameaças de censura, recai a Katherine Graham, interpretada por Meryl Streep, a decisão entre se impor, enquanto mulher e enquanto representante da imprensa, e se submeter às ameaças – explícitas ou implícitas – de quem está em situação de poder – político ou social.

A (des)construção do contexto geral e, em especial, da personagem de Streep, é fascinante. Ao longo da obra, há uma exposição da censura à imprensa no ambiente político dos Estados Unidos e da estreita linha da ética jornalística entre “colegas” e “fontes”. De forma análoga, colocam em cena uma censura mais sutil à figura de Katherine, enquanto mulher e autoridade. O desenvolvimento do filme é, justamente, proporcional ao crescimento da personagem, da imprensa e da democracia.

Meryl Streep, como sempre, oferece um espetáculo. A submissão e a insegurança de Katherine diante de seus colegas de trabalho homens, ainda que ela esteja em posição de superioridade na hierarquia do jornal, é trabalhada desde os olhares rebaixados em busca de aprovação e discursos vacilantes até o tom de voz “doce e meigo” da editora-chefe do The Washington Post.

O ponto falho com  a personagem de Katherine – e de todos os envolvidos na trama – se dá no roteiro. Há expressões e sensações muito bem traduzidas e intensas, mas não ter tempo para desenovelar as personalidades e criar vínculos. Em síntese, muito drama, pouca profundidade. Elas são o que são, de forma estática e caricata, até um determinado momento-chave. Essa “epifania” é o gran finale de Spielberg, que conduz a todo fervor os espectadores a um clímax cheio de significado e reflexões.

Por outro lado, o filme impressiona no comprometimento que promove entre espectador e as causas apresentadas. A questão do machismo no filme gera um nó na garganta e é agonizante a naturalidade com a qual ela é apresentada e desenvolvida. Precisamente, disso surge a agonia – ninguém parece perceber ou comentar nada sobre, afinal, estamos falando sobre os anos 70.

Janusz Kaminski faz um excelente trabalho como diretor de fotografia. Com suas movimentações e angulações intensificando os significados de tensão, drama e poder nas cenas. Além disso, a sonoplastia é intensa e adaptada aos momentos e contextos. Os sons causam imersão em um ambiente jornalístico fervoroso, com rápidas tecladas de datilografia e prensas a todo vapor.

O diretor destaca também, de forma bastante explícita, o choque de valores em que se encontra a imprensa. Entre o compromisso com o povo e suas relações com a política e a economia, vemos um reflexo da realidade midiática atual. Senti que existia uma urgência de refletir 1971 e 2017 porque eles foram terrivelmente semelhantes“, palavras do próprio Spielberg sobre o filme.

É um filme incrível sobre desafiar opressões e censuras, com estrelas como Streep, Sarah PaulsonTom Hanks no elenco. Com seus diálogos intensos e cenas dramáticas, é, em primeiro lugar, envolvente. Lembra-nos de lutar por uma imprensa livre e imparcial, que defenda e sirva “aos governados e não aos governantes”. Peca no excesso, mas isso não apaga o brilho da obra de Spielberg.

The Post: A Guerra Secreta no Oscar 2018

The Post está indicado a duas categorias no Oscar 2018. Concorrerá, no tapete vermelho, a Melhor Filme e a Melhor Atriz (Meryl Streep). O Oscar caminha para sua 90ª edição, a ocorrer no dia 4 de março deste ano.