Foto: Divulgação

Chico Chico lança primeiro álbum solo

Chico Chico homenageia as mães Cássia Eller e Maria Eugênia (que participa do álbum) e celebra a dinâmica da natureza, da semeadura à morte
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Em “Refazenda”, Gilberto Gil canta a compreensão dos ciclos e o respeito a eles, a partir da observação de que é assim que se dá o movimento da natureza. E se reconhece como pertencente a essa dinâmica. “Abacateiro, acataremos teu ato/ Nós também somos do mato”, canta o baiano no primeiro verso da canção lançada em 1975.

É significativo, portanto, que Chico Chico evoque a mesma árvore na abertura de seu primeiro disco solo — que em grande medida trata dos ciclos da existência, dos fins que geram novos começos. Em “Abacateiro real”, a canção que dá início ao álbum “Pomares” (Selim), o artista carioca — assim como Gil fizera décadas antes — se dirige à árvore: “Aprendi com você/ A brotar se chover/ A sugar desse chão/ A fazer fundação/ E a dar de comer/ A quem souber colher/ O fruto maduro/ Que ofereço de bem”.

Com produção de Ivan Cavazza e co-produção de Pedro Fonseca, “Pomares” é fruto maduro que Chico Chico oferece agora, aos 28 anos — estreia solo, na qual ele compõe todas as faixas, depois de ter outros três discos nos quais dividiu a assinatura. Em 2015, lançou com a banda 2 x 0 Vargem Alta (na qual era vocalista, violonista e principal compositor) o álbum homônimo. Em 2020, ao lado do cantor e compositor Fran, pôs na rua “Onde?” — com apenas uma canção escrita pela dupla, em meio a outras de nomes como Sérgio Sampaio, Luiz Melodia e Itamar Assumpção. Por fim, em fevereiro de 2021, foi a vez de “Chico Chico & João Mantuano”, outro em dupla — “A cidade”, uma das canções do disco, foi indicada ao Grammy Latino na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa.

Plantada na entrada de “Pomares”, “Abacateiro real” anuncia o cheiro de mato do disco — que pinta cenários bem longe da urbanidade nervosa do recente “Chico Chico & João Mantuano”. O cheiro de mato exala dos versos, repletos de imagens de estrelas, sementes, onças, azeviches. Mas ele se faz ainda mais forte na sonoridade, despida de guitarra e sustentada quase sempre por violões — dialogando livremente com gêneros que apontam para atmosferas interioranas, como boi, baião, folk e maracatu.

Uma sonoridade crua, nas palavras do próprio Chico Chico (o título original era “Rói”, em referência exatamente a esse aspecto). Mas a crueza que se ouve ali não guarda agressividade — é mais próxima de fruto colhido no pé, de formas frescas e sem arestas.  

“Abacateiro real” — aliás, composta por Chico Chico enquanto observava uma árvore que não era um abacateiro — talvez seja o exemplo mais radical e original dessa crueza. Seu arranjo é construído sem violões, numa trama de sopros (clarone e clarinete), cordas (violinos, viola e violoncelo) e percussões, todos bailando de forma ao mesmo tempo imprevisível e harmoniosa — como se emulassem “o voo dos insetos, tudo que for incerto” de seus versos.

Com sua poesia sinestésica, que fala em “gosto velho” e “cheiro forte amarelo amargo”, a faixa seguinte, “Amarelo amargo” é baião delicado, com o acordeon de Kiko Horta e o triângulo de Thiago da Serrinha conversando com o dedilhado do violão de Rafael Dos Anjos, o baixo de Jamil Joanes, a bateria de Cesinha e os efeitos de Ivan Cavazza..

Primeiro single a chegar às rádios e serviços de streaming, “Ribanceira” toca de forma mais evidente num tema que atravessa o álbum e está no centro do interesse de Chico Chico: a morte. Mas não como condenação, pena, destruição — e sim como parte do ciclo da vida.

 — Vejo a morte como o início de um renascer — explica Chico Chico. — Vem muito daí também o nome do disco, “Pomares”, que é uma das canções do disco. “Pomares” traz a ideia da natureza que contempla o semear, o brotar, o crescer, o secar, pra brotar e começar de novo. E o nome também carrega a diversidade de sons que me interessa.

“Pomares” carrega muitos sabores. Se “Ribanceira” se apoia nos violões de Chico Chico e Guilherme Schwab, “Templos” traz a banda cheia, pontuada pelo piano Rhodes de Pedro Fonseca e o batuque do maracatu conduzido pela bateria de Cesinha e as percussões de Thiago da Serrinha e Leon Miguel.

No centro do álbum, a faixa-título, “Pomares”, tem um naipe de 10 cordas realçando com sensibilidade a beleza da melodia e da letra. O arranjo de cordas é de Luiz Brasil, que escreveu também o arranjo de “Abacateiro real”. “Nunca mais o tempo firmou” — composta por Chico Chico e Sal Pessoa, que a cantam juntos no disco — também tem o dedo de Luiz Brasil, no arranjo de sopros.

“Mãe”, feita por Chico Chico para homenagear suas mães Cássia Eller e Maria Eugênia, é das canções mais antigas do disco, e está no repertório dos shows do artista há muitos anos. Por isso, ele resistia à ideia de incluí-la em “Pomares”. Mas a sugestão de um dueto seu com Maria Eugênia deu novo sentido à canção, que trata do crescimento (inevitável como a morte e o nascimento). Em meio ao canto de mãe e filho, os músicos que participam do disco dizem os nomes de suas mães. Um dos violões é de Walter Villaça, que tocou por anos com Cássia — Luiz Brasil é outro artista presente no disco que trabalhou com a cantora.

Depois do sopro de Clube da Esquina de “Demanda” (destaque para o piano de Pedro Fonseca), “Estrela matutina” vem como um mantra que se desenrola a partir da observação de um fenômeno tão banal quanto mágico: “Hoje eu vi nascer a estrela matutina no céu”. A canção de Chico Chico, Sal Pessoa e Marcos Mesmo tem um coro estrelado, com a participação de Juliana Linhares e Daíra Sabóia (além de Pedro Fonseca e Marcos Mesmo).

A latinidade brisa quente de “Sol de maio” (de Chico Chico e Sal Pessoa) antecede a quase vinheta “Sei que não é engraçado”. Nela, Chico Chico canta quase declamando versos nos quais se olha no espelho com distanciamento irônico: “Se falo da morte, de tudo que eu fiz, daquilo que eu quero fazer/ Me sobe um sorriso, escudo bonito pro meu medo de morrer”. 

Marcada pela dramaticidade do violoncelo de Violoncelo Frederico Puppi, “Chega” encerra “Pomares” fiel a seu chão. Ou seja, filosofia encravada na terra (ou no atrito entre ela e o céu, como Chico Chico canta noutro momento do disco): “Chega que hoje a noite vai terminar”.

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