Desde criança o aposentado José Augusto Wanderley ouve que a casa onde passava suas férias em família não era como outra qualquer. Vizinhos do terreno de número 102, da Rua das Acácias, na Estrada do Ribeirão Grande, em Itaipava, não paravam de comentar sobre as visitas ilustres que o imóvel costumava receber lá pela década de 1930. E não era para menos, a casa foi de Marcel Reine, piloto de uma famosa companhia de correio aéreo – Latécoère Airlines (futura Aéropostale) – que costumava vir para Petrópolis para descansar entre um vôo e outro e trazia com ele seus colegas de trabalho, entre eles o mais famoso: Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro O Pequeno Príncipe, uma das obras literárias mais traduzidas em todo o mundo.

Hoje, aos 70 anos, administrador, publicitário e jornalista aposentado, depois de ter ouvido todas as histórias da redondeza e reunido pesquisas com as trajetórias dos pilotos franceses da Aéropostale e, principalmente, de Saint-Exupéry, José Augusto é um apaixonado pela casa. Saiu do Rio de Janeiro, onde morava, e agora cuida de perto da residência famosa. Como ele mesmo se intitula, é o contador dessa história que por anos ficou esquecida. Há dois anos, ele abriu a casa para visitação e hoje, pessoalmente, recebe turistas de todo país e até estrangeiros. Neste Carnaval, por exemplo, italianos que passavam o feriado em Petrópolis aproveitaram para conhecer a curiosa casa que guarda um acervo de O Pequeno Príncipe e de toda história que cerca o seu autor.

“Eu gosto de receber as pessoas e ver o brilho no olhar delas quando escutam as histórias. Faço questão de exaltar sempre Petrópolis, principalmente, para as crianças. Mostrando o privilégio que é morar aqui, nesta cidade por onde passaram tantas pessoas importantes. A história da cidade está entrelaçada à história de tantas personalidades ilustres, como Antoine de Saint-Exupéry. Li o Pequeno Príncipe quando criança e li diversas outras vezes depois, cada vez que você lê você tem uma mensagem diferente”, explica José Augusto, que também é um fã do autor. “Ele tem vários livros, não só o que ficou mais famoso. Suas frases eram sempre voltadas para valores. Ele não enxergava o preço das coisas, via sempre a beleza da vida”, destaca.

Quem faz o passeio até a casa não é tratado como um turista de museu e sim um convidado. Toda história que rodeia o imóvel é contada carinhosamente por José Augusto, com as palavras de um apaixonado. Ele mostra cada cantinho do imóvel e os objetos nele, muitos com a imagem de personagens de O Pequeno Príncipe.

A casa mantém o nome dado por Marcel Reine: “La Grande Vallée”, uma homenagem à sua terra natal. E preserva traços daquele tempo, como o piso e o teto. Simples, com apenas um quarto, a casa foi sede de uma fazenda. Ao comprá-la, em 1934, Marcel Reine recebe autorização da Latécoère Airlines para descansar em Petrópolis durante as pausas nas entregas do serviço de correio aéreo. Não há fotos que comprovem a presença do autor de O Pequeno Príncipe na cidade, mas os relatos de um jornalista que acompanhava o grupo de pilotos e dos moradores do bairro servem como base para a afirmação de que ele ficou, por diversas vezes, hospedado na casa do amigo e colega de trabalho.

Há ainda quem jure de pé juntos que algumas inspirações para o livro vieram de Petrópolis. Que, ao desenhar a jibóia que engoliu o elefante, Saint-Exupéry teria se inspirado na Pedra do Elefante, no Taquaril. A pedra pode ser vista no caminho para chegar à “La Grande Vallée”.

Para Petrópolis, a casa é mais um atrativo para os turistas e também para os petropolitanos curiosos com essa parte da história da aviação e da vida do autor de O Pequeno Príncipe. Segundo o secretário da Turispetro, Marcelo Valente, a cidade guarda ricas histórias, de diversas personalidades, e só tem a ganhar com esse tipo de visitação. “Temos um patrimônio histórico-cultural incrível no município. Mesmo sendo um imóvel particular, precisamos incentivar e fomentar essas iniciativas. A casa entrou no nosso site oficial e está na nossa rota turística. Desde então vem recebendo turistas de diversos lugares do Brasil e do mundo”, destaca Valente.

A história

A Fazenda São José do Magé e Ribeirão, como era chamada na década de 1910, pertencia a família La Rocque, que costumava receber seus amigos franceses, entre eles o experiente piloto Marcel Reine. O clima da Serra e as longas cavalgadas que fazia na região foram determinantes para que Reine se encantasse por Petrópolis e resolvesse, em 1934, comprar a casa da família. Nasce, então, “La Grande Vallée”, um local usado para o descanso de Reine entre suas paradas, ao invés de utilizar o alojamento da base aérea no Rio de Janeiro. Naquela época, eram longas três horas até chegar na Cidade Imperial.

No período que usou a casa, Reine trazia seus amigos pilotos, como Saint-Exupéry, e ainda, segundo José Augusto, intelectuais da época, como Alceu Amoroso Lima. No final da década de 1930, Reine foi transferido. O terreno foi loteado e a sede da fazenda vendida pelo empresário Joaquim Inojosa para a família de José Augusto. “Quando meu pai comprou a casa, não sabíamos de toda essa história. Fomos descobrir anos depois, com os comentários dos vizinhos. Ela era nossa casa de veraneio, onde passávamos as férias. Os pilotos naquela época eram muito famosos e as amigas da minha irmã começaram a contar pra ela algumas histórias. Mas tudo ficou guardado até pouco tempo atrás, quando resolvemos abrir para visitação”, explica José Augusto.

O pai dele, Lourival Cavalcanti Wanderley, hoje dá nome a praça que tem no bairro, bem em frente à fonte construída em homenagem ao autor de O Pequeno Príncipe.        A fonte, de pedras, decorada com azulejos e a imagem do Pequeno Príncipe, foi restaurada em 2000, ano do centenário de Saint-Exupéry. Ela traz a frase: “o que torna belo o deserto é que ele esconde um poço nalgum lugar”.

Já dentro da casa, José Augusto preserva um verdadeiro santuário do Pequeno Príncipe. Desde a xícara de café com que recebe carinhosamente seus convidados – com o desenho do personagem – a diversas fotos, reportagens, livros, objetos decorativos e documentos, como a escritura da casa quando comprada por Marcel Reine. Sem contar as diversas versões do livro mais famoso de Saint-Exupéry.

Um dos maiores reconhecimentos da importância do imóvel foi a passagem do “Raide Latécoére” pela casa, em 2014.

 Saint-Exupéry

O visitante mais ilustre da casa, Saint-Exupéry, era considerado um dos melhores pilotos da companhia. Foi um dos primeiros aviadores a trabalhar para o serviço postal francês. Mas, paralelo a isso, o autor de O Pequeno Príncipe também escreveu diversas obras durante sua carreira de piloto, como O aviador (1926), Terra dos Homens (1939), Piloto de Guerra (1942), entre outros. Antes mesmo de sua obra mais famosa, ele já havia ganhado prêmios literários nos EUA e na França.

Mas o escritor não conseguiu ver o sucesso de O Pequeno Príncipe. No ano seguinte que escreveu o livro, em 1944, ele segue em missão militar, mas seu avião acaba desaparecendo no mar e seu corpo nunca foi encontrado. Só em 1998, uma pulseira que pertencia ao piloto foi encontrada por um pescador.

Suas frases são lembradas até hoje, como “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”, entre diversas outras.

A casa

“La Grande Vallée” está aberta para visitação de quarta-feira a domingo, de 11h às 16h – mediante agendamento (grupos até 20 pessoas, escolas e visitas individuais). Os agendamentos podem ser feitos pelos telefones: (24) 2222-1388 e (21) 9 9354-3179. A casa fica na Estrada do Ribeirão Grande – Rua das Acácias, 102 – Itaipava. O ingresso custa R$ 25.