A democracia que você vive é a mesma democracia que seu vizinho participa?

A arrumadeira do quarto de hotel, que não pode ser vista pelos hóspedes, a faxineira que realiza seu trabalho quando seus patrões não estão em casa, o gari que passa pela porta da sua casa por alguns instantes e você nem percebe. Será que tem que ser assim?
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Em meio as reflexões, algumas questões sobre nossa sociedade vieram à tona nesta quarentena, principalmente neste momento crítico de saúde pública em que a “humanidade” se apresenta.

É um momento de reflexão, não é mesmo?

Felicidade, democracia, humanização, política, dinheiro, saúde (ou a falta dela), são algumas das questões que permeiam nossa sociedade, prevalecendo em nossas “rodas de amigos” virtuais.

Ficar em quarentena nos possibilitou observar outras opções na nossa rotina. O distanciamento, apesar de nos afastar das pessoas que gostamos, nos aproximou intimamente deles, pois nos fez lembrar mais e aumentar a saudade a cada dia.

Ficar em casa, “não deveria ser”, mas é diferente! Pequenas coisas passam a ser grandes. A importância que destinamos a algumas questões são maiores. Pode ser entediante em alguns momentos, perturbador em outros, mas também aconchegante.

O maior problema, no meu caso, é adaptar a rotina do trabalho com as questões caseiras. O home office é um desafio e fixar o horário para iniciar e terminar as atividades é muito complicado. Acredito que existam pessoas que conseguem trabalhar estas questões com muita maestria.

Gostaria de me aprofundar mais sobre algumas questões que estão em voga, mas me estender desviaria o assunto inicial, que propus no inicio desta reflexão, que é a “democracia”. A democracia que você vive é a mesma democracia que seu vizinho participa?

Olhando pela janela da sua casa, com certeza você conseguirá perceber as distinções ou privilégios de alguns membros da nossa sociedade. Algumas pessoas desfrutam de seus carros e de suas motocicletas, algumas das casas possuem piscinas e outras são bem localizadas. Nas grandes cidades você percebe o contraste mais facilmente, pois há desigualdade em todo o lugar. Favelas contrastam com mansões, moradores em situação de rua são invisíveis aos que trafegam nas calçadas, profissionais que “esbarramos” diariamente são significativamente transparentes na nossa sociedade.

Muitos exemplos podemos citar para que consigamos desnudar o que estou me referindo. Ainda nos possibilitaria a reflexão sobre como nossa sociedade aceita o desprezo da classe assalariada. A arrumadeira do quarto de hotel, que não pode ser vista pelos hóspedes, a faxineira que realiza seu trabalho quando seus patrões não estão em casa, o gari que passa pela porta da sua casa por alguns instantes e você nem percebe. Será que tem que ser assim?

Voltando a falar da rotina do seu trabalho, neste momento de pandemia, trabalhando em home office, se sente invisível como estes profissionais? Você está conseguindo manter, ou até mesmo superar, o desempenho que teria na empresa onde trabalha?

Muitas questões diferenciam você do seu colega de trabalho que também está em casa. Será que seus líderes estão conseguindo avaliar seus desempenhos? Será que eles estão preocupados com esta questão? Qual a sensação que você tem em relação a sua empresa? Está tudo organizado ou tudo foi deixado de lado neste momento tão difícil e não há mais preocupação com os afazeres?

Neste momento muitas empresas estão renunciando a planejamentos que fizeram com que chegassem onde estão, tais como “avaliações de desempenho”, “registro de ponto”, “análise de qualidade de atendimento”, “treinamentos”, “reciclagens”, entre outras coisas. Em alguns casos a confiança no profissional é o que lhes restam.

Anos atrás nós já falávamos do trabalho home office. Lembro-me que, em 2005, quando iniciei a faculdade de Ciência da Computação, meus professores já diziam que o trabalho em casa seria “o normal”, mas era difícil de vislumbrar como tudo realmente iria acontecer de fato. A internet não era como hoje, os computadores, a comunicação por vídeo, nada era muito acessível, apesar de já existirem em longa escala.

Mas você deve estar se perguntando, o que isso tem a ver com “democracia”.

De fato, o que estou exteriorizando pode não parecer envergar para o assunto democracia, mas se você fizer uma reflexão bem a fundo, sobre tudo que mencionei, você entenderá que estou me referindo a este tema.

Uma das definições de “democracia”, retiradas do dicionário Oxford Languages, diz que se trata de um “regime em que há liberdade de associação e de expressão e no qual não existem distinções ou privilégios de classe hereditários ou arbitrários”.

Contudo que foi descrito até aqui, depois de ler esta definição de democracia, você concorda estar vivendo plenamente este regime? Eu e você temos o poder de escolha? Temos o poder de nos expressar, sem que haja repressão? Somos privilegiados? E por que temos que ser privilegiados?

Dentro da nossa sociedade, concordo que eu seja uma pessoa privilegiada, apesar de sofrer com diversas questões que limitam a minha liberdade e que não me trazem a felicidade. Sou privilegiado por ter tido a oportunidade de obter alguma coisa a mais que muitos cidadãos brasileiros, que sofrem por viver debaixo dos viadutos, que lutam para comer, que não possuem um celular ou um computador, que não tiveram a chance de estudar ou de ler um livro.

A democracia me proporciona a liberdade de me expressar, mas a sociedade me reprime por isso. Nas redes sociais eu tenho que me limitar a falar o que as pessoas querem ouvir. A foto tem que ser bacana ou a verdade tem que ser a mesma que todos compartilham.

Os moradores das comunidades carentes vivem à mercê das milícias ou dos bandidos. Quem mora próximo das “favelas” também se veem em situações vexatórias enfrentadas em meio ao medo. As decisões “arbitrários”, principalmente dos órgãos públicos, nos deixam inseguros e incrédulos para o futuro.

Eu confesso: falar de democracia não é fácil. Discutir sobre ela é abrir um leque de opções para tratar por um tempo maior do que a quarentena. Deveríamos falar de política com nossos amigos, com nossos filhos, na escola, nos parques e no trabalho. Fazer nossas escolhas, decidir mais, influenciar menos. Acredito que falta educação para o nosso povo, falta sabedoria. As escolhas da nossa sociedade não são bem realizadas, pois não temos discernimento suficiente para decidir o que queremos. Acredito que uma educação de qualidade nos proporcionaria uma vitória nas urnas. Conseguiríamos escolher melhor e cobrar mais os nossos direitos. Quando eu deixo de cobrar por uma solução, me abdico de fazer meu papel de cidadão.

A democracia no Brasil me proporciona colocar um governante no poder, mas não me oferece a mesma possibilidade de tirá-lo quando conveniente. As decisões mais importantes são colocadas nas mãos dos políticos que, muita das vezes estão lá dentro por escolha dos seus partidos e não pela sociedade. São corrompidos mesmo antes de chegarem ao poder. Isso nos faz desacreditar no ser humano, e acreditar que a “desumanidade” está mais presente.

Mas e você? A democracia que você vive é a mesma democracia que seu vizinho, que seu colega de trabalho, que seu chefe, e que seu amigo participam? Faça uma reflexão!

 

Sobre o autor

Alessandro Marques é micro empresário, graduado em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Estácio de Sá, cursou Ciência da Computação pela Universidade Carioca de Ensino Superior – UNICARIOCA, atuou em grandes corporações, principalmente em áreas voltadas para a qualidade do atendimento, treinamento e capacitação e Management system (MS). Atuou junto as equipes das Centrais de Atendimento do Canal Futura, da Fundação Roberto Marinho e do Telecurso, por nove anos, chegando a liderar e supervisionar o grupo. Atuou na implantação de monitoria de qualidade em atendimento de call center para os bancos HSBC e Sicred, através de uma empresa de consultoria. Teve a oportunidade de participar do planejamento estratégico de empresas como Pró Nascer e planejou, desenvolveu e administrou pesquisas de opinião com foco em direito do consumidor, fazendo inclusive gestão de equipes para coleta em campo e por telefone.

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