A ansiedade pode ser um precursor da depressão

Este tipo de condições comportamentais têm sido, ao longo do tempo, alvo de estudos e testes

Ansiedade e depressão são assuntos cada vez mais na ordem do dia. O neurocientista Fabiano de Abreu tem vindo a focar o seu estudo nestas matérias e partilha a sua abordagem.

Segundo Abreu, a ansiedade é igual ao medo pela incerteza do futuro. “Ansiedade é uma luta/fuga, um instinto de sobrevivência, uma expectativa apreensiva com relação ao que está por vir. O receio é igual ao medo, pela incerteza no futuro. Ambos são sentimentos similares com um mesmo resultante, ou seja, o receio leva à ansiedade que pode levar a outros transtornos ou síndromes e, em última análise leva à depressão.”

Fabiano de Abreu explica ainda como essas mudanças são processadas a nível cerebral de uma forma que possamos entender.

“Quando sentimos uma ameaça, ela é recebida no cérebro através do córtex visual. Quando estamos perante a dita ameaça enviamos duas mensagens, uma para a amígdala e a outra para o córtex pré frontal. A Amígdala reencaminha a mensagem para as glândulas suprarrenais que passam a produzir mais noradrenalina, hormónio do medo, humor, ansiedade, sono e alimentação junto com a serotonina, dopamina e adrenalina. Esse neurotransmissor é um precursor da adrenalina, ou seja, ele aparece antes da adrenalina ser metabolizada. São neurotransmissores parecidos sendo que estimulam receptores diferentes.

A amígdala é a resposta física do medo. A consciência do medo está no córtex pré frontal. Aqui encontramos o julgamento, a razão para o medo procurando memórias antigas e recentes de experiências do mesmo. Não precisamos ver para que nossa amígdala perceba o perigo, o medo, pois a região vai além dos sentidos mas também da percepção da condição.”, explica.

Este tipo de condições comportamentais têm sido, ao longo do tempo, alvo de estudos e testes para se conseguir desvendar sempre mais sobre a matéria.

“Neurocientistas da universidade da Califórnia, em São Francisco, fizeram testes em participantes com depressão e ansiedade que apresentaram sinais passando entre a amígdala cerebelosa, grupo de neurônios pertencentes ao sistema límbico que controlam as emoções, e no hipocampo, que é a estrutura localizada nos lóbulos temporais do cérebro e responsável pelo armazenamento da memória, em que as frequências apresentadas foram entre 13 e 30 hertz.

As ondas cerebrais, chamadas β-AH ICNs, coincidiam com períodos em que a ansiedade aumentava. Essas regiões têm papéis na emoção e no humor. As amígdalas recebem as informações dos sentidos, aonde fica armazenado o que seria o inconsciente. As mesmas demonstram desempenhar um papel importante no processamento da memória e decisão especialmente no processamento de memórias que tenham significado emocional, tomando decisões com base nas mesmas.

O hipocampo é conectado reciprocamente ao córtex e às estruturas subcorticais. A atividade no hipocampo é necessária para converter memórias de curto prazo em memórias de longo prazo. Ele consolida uma experiência ou fato mantido na memória de curto prazo em código armazenável de longo prazo. O hipocampo também está diretamente conectado ao córtex visual e desempenha um papel significativo na navegação espacial e na memória.”, refere o neurocientista.

Abreu explica também que há uma série de sintomas e condicionantes que podem ser reveladores de ansiedade. De acordo com as suas palavras, “A adrenalina circulante precisa ser queimada, o que causa ações diferentes em cada parte do corpo: pode provocar tontura, boca seca, dificuldade de respirar, taquicardia,  inquietação física, tremores, inquietação física,  visão turva, frio na barriga, arrepios, dores de cabeça, sudorese, problemas gastrointestinais, sensação de queda, podendo levar ao desmaio.”.

Ainda segundo o autor, a ansiedade pode causar outras disfunções, mas tudo depende do tipo e a intensidade da ansiedade. “A ansiedade pode resultar ainda em disfunções de outros neurotransmissores, entre eles, a serotonina e a dopamina que resultam nos sintomas acima. Tudo depende do tipo e intensidade da ansiedade para os sintomas e também do organismo do indivíduo e como ele responde ao desequilíbrio.”.

Fabiano de Abreu esclarece ainda que é necessário compreender a ligação entre a ansiedade e a memória e a forma como se comportam.

“A ansiedade é um circuito de sobrevivência defensivo e está relacionado à memória de trabalho, que faz a manutenção temporária e processamento da informação durante a realização de tarefas diversas. Quando a memória de trabalho está ativada, o seu funcionamento reside na interação entre o córtex pré-frontal e diferentes áreas do córtex posterior, lobo temporal e occipital.

Quanto maior a ansiedade, maior a perda da razão e da memória. Isso acontece pois a ansiedade é um sistema de defesa e a emoção impulsiona para que possa ter uma saída rápida. Quando temos a emoção sobressaindo à razão, temos menor raciocínio. Também há a questão da disfunção hormonal que leva a sintomas que interferem na razão. Por último, o terceiro ponto é o acumulo de informações que geram filtros em que, quando acentuada a ansiedade, o cérebro tem dificuldades na escolha devido a essa interferência de informações. É como se a emoção estivesse em todas as memórias e não escolhesse uma só para armazenar. Uma tremenda confusão.”, explica.

A ansiedade é ainda fonte de vários outras doenças e síndromes que podem dificultar a nossa vivência.

“A ansiedade pode levar à síndrome do pânico, fobias, transtornos, síndromes, mutismo seletivo, stress e depressão.”, diz Abreu.

Para contrariar essas situações é necessário aprender a lidar com a ansiedade e saber como a controlar.

“Falta de metas de curto e longo prazo elevam a ansiedade e levam à depressão. É importante criar não só metas de longo prazo, mas as de curto. Principalmente quem sofre de ansiedade;

Respiração, procurar respirar fundo quando sente-se ansioso;

Nosso tipo de pensamento é responsável pelas diversidades mentais negativas. O pensamento desencadeia uma ação no sentimento. Precisamos pensar positivo e tentar agir positivamente também;

Meditação é um bom exercício de relaxamento quando praticado devidamente, não pensando em nada negativo ou que leve à ansiedade;

Auto intoxicação comportamental, onde seus pensamentos desregulam os hormônios e neurotransmissores trazendo desequilíbrio. Mudança de hábito é essencial;

Uma neuroplasticidade cerebral criando novas conexões através da leitura, exercícios físicos e mudança de hábitos;

Uma alimentação que supra nossas necessidades e regule a microbiota intestinal para que reações não atrapalhem o bem- estar e não levem a uma ansiedade.”, concluí.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

veja também